Sem muitas explicações quero postar estas duas passagens, a primeira Pequeno Principe e a segunda um poema de Fernando Pessoa:
"O trigo para mim não vale nada. Os campos de trigo não me lembram coisa alguma. E isso é triste! Mas tu tens cabelos dourados. Então será maravilhoso quando tiveres me cativado. O trigo que é dourado, fará com que eu me lembre de ti. E eu amarei o barulho do vento no trigo..."
"Não sei quantas almas tenho.
Cada momento mudei.
Continuamente me estranho.
Nunca me vi nem acabei.
De tanto ser, só tenho alma.
Quem tem alma não tem calma.
Quem vê é só o que vê,
Quem sente não é quem é,
Atento ao que sou e vejo,
Torno-me eles e não eu.
Cada meu sonho ou desejo
É do que nasce e não meu.
Sou minha própria paisagem;
Assisto à minha passagem,
Diverso, móbil e só,
Não sei sentir-me onde estou.
Por isso, alheio, vou lendo
Como páginas, meu ser.
O que segue não prevendo,
O que passou a esquecer.
Noto à margem do que li
O que julguei que senti.
Releio e digo : "Fui eu ?"
Deus sabe, porque o escreveu."
quinta-feira, 19 de junho de 2008
terça-feira, 17 de junho de 2008
A Caixa de Pandora
De acordo com a mitologia grega existia uma caixa inacessível a qualquer pessoa. Somente através desta caixa chamada "Caixa de Pandora" os deuses poderiam ser destruídos. Intensionamente gostaria de fazer uma analogia da Caixa de Pandora com um outra inusitada caixa. Na península grega, mais ou menos no século V a.C, surgiu um grupo de indivíduis nada comum, eles eram barbudos, não se vestiam bem, e eram acessiveis à todos porém aceitos somente por alguns. Esses filósofos gregos levavam consigo uma caixa, que eles próprios denominaram de a "caixa da razão". Nunca deixavam pertubar-se pelas consequências psicolígicas e materiais de uma posição humilde que viviam na sociedade. Ao contrário, permaneciam sempre calmos diante de quaisquer insultos . Este novo elemento que a filosofia introduziu, ou seja, a razão, pode ser visualizada como uma caixa de percepção. Onde as opniões públicas, sejam elas positivas ou negativas, devem ser filtratas pela razão antes de serem dirigidas à auto-imagem, à consciência. Era através dessa razão que Sócrates, Marco Aurélio e outros, podiam visualizar se a opnião alheia era fundamentada de uma lógica. Os próprios filosofos recomendavam, caso fossemos tratatos com injustiça pela sociedade, que não nos pertubássemos mais com o julgamento do que faríamos se tivéssemos sido abordados por um louco com a intenção de provar que dois mais dois são cinco. E é essa razão que deve bloquear o pensamento de que ‘o que os outros pensam de nós deve determinar o que pensamos de nós mesmos.’
Somente através da Caixa de Pandora é que os deuses gregos poderiam ser destruídos; seja a razão a nossa Caixa de Pandora com relação ao que os outros pensam de nós e ao que possuimos. Nosso ser, nossa imagem, nossa casa, nossos moveis, nosso caracter, nossa vida, talvez na concepção dos outros essas coisas não têm valor algum. Mas podemos usar a caixa da razão como Diógenes usou:
Quando Alexandre, o Grande, passou por Corintio, visitou o filósofo Diógenes e o encontrou sentado sob uma árvore, vestido com trapos, sem nenhum dinheiro. Alexandre, o homem mais poderoso do mundo, perguntou se ele podia fazer alguma coisa para ajudá-lo. “Sim”, respondeu o filósofo, “se puder, saia do caminho. Está bloqueando a luz.” Os soldados de Alexandre ficaram horrorizados, esperando um surto da famosa ira de seu comandante. Mas Alexandre limitou-se a rir e lembrou que, se ele não fosse Alexandre, certamente gostaria de ser Diógenes.
O que importa não é o que parecemos à um grupo aleatório, mas o que sabemos que somos. Nas palavras de Shopenhauer:”Toda reprovação só pode ferir se atnge o alvo. Quem quer que realmente saiba que não merece uma reprovação pode tratá-la e a tratará com desprezo.”
sexta-feira, 6 de junho de 2008
A Veemência dos Personagens
Naqueles dias em que tudo parece sombrio e triste, as lembranças dos personagens literários nos invadem e com uma linguagem não muito comum nos arremete outra vez ao ânimo, e sem entendermos ao certo o porque: nossa vontade de viver renasce em grandes proporções. E na verdade essas lembranças valem muito mais do que nossas experiências cotidianas.
quinta-feira, 29 de maio de 2008
O Processo
“Alguém certamente havia caluniado Joseph K. pois uma manhã ele foi detido sem ter feito mal algum.”Hoje acordei e verifiquei meu email. Me deparei com uma intimação para uma audiência na Polícia Federal, obviamente era tudo papo furado. Mas de primeira mão me lembrei do O Processo de Franz Kafka...caramba, por um segundo me senti o protagonista Joseph K. Por um segundo me senti feliz por imaginar que poderia estar acontecendo exatamente o mesmo comigo. Por um segundo desejei ter acontecido e que por fim terminaria tudo...enfim...com uma lâmina reluzente em meu pescoço...! Alguém já ti disse que é perigoso viver?
segunda-feira, 26 de maio de 2008
terça-feira, 20 de maio de 2008
Ele mudou a minha vida...

“Nada lhe posso dar que já não exista em você mesmo.” Não me lembro de muitas coisas da minha infância, acredito eu que nada de gravísinimo acontecera. Exceto quando fui apresentado a Hermann Hesse, romancista alemão. Seus romances e contos foram como uma nuvem clara e azul; aquelas que raramente conseguimos enxergar no mundo industrial. Sou grato por quase todos os escritos desse homem terem chegado até mim. Quando menino lia tuas empolgantes histórias que me ensinaram a ser hoje quem sou. E quem quiser nascer tem que destruir um mundo; destruir no sentido de romper com o passado e as tradições já mortas, de desvincular-se do meio excessivamente cômodo e seguro da infância para a conseqüente dolorosa busca da própria razão do existir: ser é ousar ser. Não vou dizer também que minha fase adolescente foi calma e suave. Levemente passou pelo meu espírito turbulências que jamais vou esquecer, as quais me foram úteis para seguir em frente. A maré mais alta que tive de enfrentar veio com grandes forças, faustosamente me impediu por um tempo de continuar andando. Mas foi precisamente nesta fabulosa maré que encontrei a Exit Door. Frederich Nitzsche foi como uma viagem navegante extremamente difícil, horas ele deixava-me no fundo do mar horas sobre as nuvens. O prodigioso Camus me faz sentir um estrangeiro, passageiro numa estação de trem. Mas como diaria Ernest Heminghay: “Um homem pode ser destruído, mas nunca derrotado.” Fui ao fundo arriscando-me, aconselhado por Sorën Kierkgaard: “Arriscar-se é perder o equilíbrio por uns tempos, mas não se arriscar é perder-se a si mesmo para sempre.” Ao entregar-me, Montagne nos seus Ensaios trouxe-me a âncora de volta a seu lugar: “O homem não é tão ferido pelo que acontece, e sim por sua opinião sobre o que acontece.” Aprendi mais em Balzac sobre a sociedade francesa da primeira metade do século, do que em todos os livros dos historiadores, economistas e estatísticos da época, todos juntos. Pascal, Sartre, Goethe, De Botton, Thomas Mann, porque não citar também Marco Aurélio, Oscar Wilde, Shakespear e o ilustre Kafka. Que meu espírito seja vivaz, que possa transformar-se em inúmeras fantasias e formas, em pastor e em peregrino, em criança e em animais e principalmente em pássaros e árvores. Isso é muito importante, isso quero e preciso para a minha vida e se um dia não puder mais ser assim e eu tiver que viver a chamada REALIDADE então eu preferirei morrer. Nos livros e nas leituras meu caminhar é mais lento, não me obrigo a correr. Depois de sentir-me cansado em procurar, aprendi a encontrar. Depois de um vento ter-me feito resistência, navego com todos os ventos. Hoje desejo aprender cada vez mais a ver o belo na necessidade das coisas: é assim que serei sempre daqueles que tornam as coisas belas. Ele escreveu os meus livros...Eles mudaram minha vida..."
sábado, 10 de maio de 2008
Aurora
Ele andou à noite inteira e parou em um lugar comum. Continou em pé como se algo o forçasse a não se curvar. Ficou ali por mil anos ou por um instante. A brisa formou-se em uma pequena gota e percorreu por toda a folha verde e sobre sua face encontrou-se à ponta de seu nariz - a sensação foi parecida com a de uma teia de aranha na pele. Deu a impressão de que iria mexer sua mão, mas nada fez. Lembrou-se de ter caminhado à noite inteira, mas não se sentia cansado, apenas uma leve comoção passou por ele vindo do lado sul. Já estava quase amanhecendo, o céu estava quase azul outra vez. Deu um passo a frente e sentiu a areia nos pés descalços e molhados por causa da aragem. Olhou distante, bem distante e quanto mais esforço fazia menos conseguia enxergar o fim. Era a aurora e neste exato momento deu-se conta de que era muito menor que o mar.
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